Hoje decidi bancar a Martha Medeiros e escrever – escrever não, fi-lo-so-far – sobre nossa vidinha mais ou menos. Nada de cinema, tevê, música ou outro alucinógeno que faz a gente sonhar que vive numa galáxia muito, muito distante ou naquele Leblon que parece pertinho, mas não é. A vida nem sempre tem efeitos especiais, não é o tempo inteiro como um intervalo de margarina, muito menos toca suave 24 horas por dia como uma canção do Elton John.Ok, ok, estou sendo radical. Há Spielbergs por aí com bons truques na manga, capazes de nos fazer acreditar no velho e surrado futuro da humanidade; há dias em que o margarina way of life parece real; e há até noites em que o Rocket Man cisma de fazer um show na Apoteose. Ainda bem. O mundo agradece.
Mas o ensaio aqui é sobre aqueles dias e noites em que nos achamos (quase) um lixo, quando temos um instante de lucidez e percebemos que as pessoas gostam da gente não exatamente pelo que somos, mas por aquilo que oferecemos. Como uma lojinha de conveniências, aquela que você visita depois da meia-noite só porque está precisando de um cigarro, de um salgadinho ou de umas pilhas.
Pense bem: sua sogra te “adora” porque você é “sensacional” ou porque você cai como uma luva no tipo de cônjuge com o qual ela sonhou para sua cria? Você está com seu/sua companheiro/a porque o/a admira ou porque ele/a se ajusta exatamente àquilo que você sempre imaginou ser o ideal para uma vida a dois, àquilo que lhe é mais... conveniente?
E a coisa se estende: você vota no candidato X porque ele promete podar as árvores do seu bairro ou porque ele promete cuidar de toda a cidade? Você torce pelo time Y porque é seu time do coração ou porque de fato merece ser o primeiro? Você se aproxima do sujeito Z porque te faz rir hoje, na mesinha do bar, ou porque te fará rir mais à frente, com um empurrãozinho no trabalho?
Essas perguntas parecem idiotas, provocam algumas respostas óbvias, e são tudo isso mesmo. A sogra adora o genro porque cai como uma luva no tipo de marido com o qual ela sonhou para sua filha. O rapaz gosta da moça porque a admira e ela se ajusta exatamente àquilo que ele sempre imaginou para uma vida a dois. Esse mesmo rapaz vota no candidato X porque ele prometeu podar as árvores do seu bairro (da sua rua, na verdade...), cujos galhos estavam invadindo sua janela. Ele torce pelo time Y porque é seu time do coração e, por isso, merece ser o primeiro – sempre. Ah, e ele se aproxima do sujeito Z porque sua vidinha mais ou menos estava de menos e precisava urgentemente de uma pitada de bom humor. Conveniente, não?


