07/12/2009

Ensaio sobre a conveniência

Hoje decidi bancar a Martha Medeiros e escrever – escrever não, fi-lo-so-far – sobre nossa vidinha mais ou menos. Nada de cinema, tevê, música ou outro alucinógeno que faz a gente sonhar que vive numa galáxia muito, muito distante ou naquele Leblon que parece pertinho, mas não é. A vida nem sempre tem efeitos especiais, não é o tempo inteiro como um intervalo de margarina, muito menos toca suave 24 horas por dia como uma canção do Elton John.
Ok, ok, estou sendo radical. Há Spielbergs por aí com bons truques na manga, capazes de nos fazer acreditar no velho e surrado futuro da humanidade; há dias em que o margarina way of life parece real; e há até noites em que o Rocket Man cisma de fazer um show na Apoteose. Ainda bem. O mundo agradece.
Mas o ensaio aqui é sobre aqueles dias e noites em que nos achamos (quase) um lixo, quando temos um instante de lucidez e percebemos que as pessoas gostam da gente não exatamente pelo que somos, mas por aquilo que oferecemos. Como uma lojinha de conveniências, aquela que você visita depois da meia-noite só porque está precisando de um cigarro, de um salgadinho ou de umas pilhas.
Pense bem: sua sogra te “adora” porque você é “sensacional” ou porque você cai como uma luva no tipo de cônjuge com o qual ela sonhou para sua cria? Você está com seu/sua companheiro/a porque o/a admira ou porque ele/a se ajusta exatamente àquilo que você sempre imaginou ser o ideal para uma vida a dois, àquilo que lhe é mais... conveniente?
E a coisa se estende: você vota no candidato X porque ele promete podar as árvores do seu bairro ou porque ele promete cuidar de toda a cidade? Você torce pelo time Y porque é seu time do coração ou porque de fato merece ser o primeiro? Você se aproxima do sujeito Z porque te faz rir hoje, na mesinha do bar, ou porque te fará rir mais à frente, com um empurrãozinho no trabalho?
Essas perguntas parecem idiotas, provocam algumas respostas óbvias, e são tudo isso mesmo. A sogra adora o genro porque cai como uma luva no tipo de marido com o qual ela sonhou para sua filha. O rapaz gosta da moça porque a admira e ela se ajusta exatamente àquilo que ele sempre imaginou para uma vida a dois. Esse mesmo rapaz vota no candidato X porque ele prometeu podar as árvores do seu bairro (da sua rua, na verdade...), cujos galhos estavam invadindo sua janela. Ele torce pelo time Y porque é seu time do coração e, por isso, merece ser o primeiro – sempre. Ah, e ele se aproxima do sujeito Z porque sua vidinha mais ou menos estava de menos e precisava urgentemente de uma pitada de bom humor. Conveniente, não?

30/11/2009

Para quem acredita em vampiros

Não sou e nunca fui (embora não possa prometer que nunca serei) uma crepusculete, para usar a expressão do crítico Pablo Villaça. Ao contrário do que aconteceu com a saga do bruxinho de J. K. Rowling, integralmente lida e mastigada, vi os filmes crepusculares sem jamais ter me aproximado de um só volume da tetralogia de Stephenie Meyer. Medo de não gostar? qual nada: medo de gostar demais, de ser novamente absorvida por um universo do qual seria doloroso me despedir. Doloroso por motivos diferentes – que merecem parágrafo.
Enquanto o feitiço de Harry mora na criação de um mundo paralelo que existe de se pegar – lá fora, longe da gente –, o de Crepúsculo está “aqui mesmo”, como diria o ET de Spielberg, com o dedinho apontando para a cabeça. Crepúsculo e suas sequências têm o mesmo veneno de um Romeu e Julieta ou um Werther (guardadíssimas as devidas proporções literárias, é claro, já que ainda estou sã): oferecem não a fantasia, mas a projeção. Não uma simples brincadeira, e sim uma alternativa. Uma edição revista e ampliada de nós mesmos. Todos sabemos, por exemplo, que é impossível jogar quadribol ou voar em hipogrifos, e convivemos com isso perfeitamente. Salvo em caso de psicose, temos anticorpos naturais contra aquilo que nunca poderíamos ser. Mas nada nos defende daquilo que talvez pudéssemos ser. Nada nos defende do que pega a vida-nossa-de-cada-dia e a reproduz de maneira visceral, inebriante, hiperbólica. Em termos de amor, principalmente. Quem resiste ao desespero do pobre Werther ou dos amantes de Verona, essa urgência que aparentemente os isenta de qualquer outro laço, desejo, prioridade ou obrigação? essa fúria que lhes dá uma suposta carta branca para ignorar todos os raciocínios, um álibi para todos os impulsos, uma libertação de todas as escolhas? Infelizmente para nós, não queremos o amor propriamente dito: queremos um greencard, um visto permanente para a loucura, uma desculpa para a inconsciência. Soa melhor ser “obrigada” a enfrentar um clã de vampiros do que ter de estudar para a prova de Geografia.
Ok, Edward Cullen é um vampiro, o que teoricamente também joga a saga crepuscular para o domínio do fantástico. Mas o fato de Edward não ser humano é um mero detalhe: sua “vida” é a nossa vida, seu quintal é o nosso quintal. As questões de Harry Potter se resolvem em sua própria esfera, sem quase qualquer contato com o mundo trouxa – jedi moderno de uma galáxia muito distante. É um ícone sim, mas filosófico, como Hércules, Neo, Kal-El ou Luke Skywalker. Edward, porém, é um ícone de nosso mundo infinitamente particular, a remasterização do herói amoroso, o príncipe apaixonado que as mocinhas já teriam vergonha de sonhar na forma de um Montéquio, mas que desejam no corpo de um Cullen. Harry é a recriação de um mito; Edward é a atualização de um sonho. E é por isso que tenho fugido tanto de seus perigosos dentinhos.
Ao mesmo tempo, assistir a Lua nova no cinema traz a feliz constatação que o Fábio mencionou dois textos atrás: em um mundo acostumado a descrer de tudo, existe esperança em gerações suficientemente inocentes (no melhor sentido do termo) para suspirar pelo cavalheirismo à moda antiga, pela incondicionalidade do amor e até por – spoiler que provavelmente não spoilerá ninguém – um pedido de casamento. Para equilibrar a balança da autodestruição romântica, nada como sua nobreza mais encantadora – o que realmente me deixa, oitocentista tardia que sou, a um passo de ser transformada.

27/11/2009

Start

A notícia de que a Atari relançou seu website e, como estratégia para chamar a atenção do público, disponibilizou gratuitamente alguns de seus arcades mais clássicos, como Asteroids, Adventure e Battlezone, mexeu com a minha memória afetiva – esta superfantástica amiga, capaz de guardar de tudo um pouco sem reclamar da poeira e do acúmulo de bugigangas.
Verdade verdadeira, não me lembro desses jogos que a Atari resolveu ressuscitar depois de tantíssimos anos. Minha lembrança dos tempos em que a gente enchia a mão de calos tentando controlar o joystick começa com o Pac-Man, conhecido também pelo carinhoso apelido de Come-Come. Era difícil engolir todos os tracinhos da tela sem ser “consumido” pelos fantasminhas nada camaradas (ao som daquela trilha eletrônica que todo atariano há de se recordar).
Outro clássico das minhas férias (quando o tempo era inteirinho dedicado a bater recordes no mundo virtual) era o River Raid, com um aviãozinho que tinha de detonar aeronaves e navios inimigos sem se esquecer, claro, de reabastecer nas faixas vermelhas e brancas com a inscrição “fuel”. Até pontes eu derrubava! Com tiros hoje inofensivos, de pouquíssimos kilobytes...
Eu também não resistia às desventuras em série do Pitfall, no qual um rapazito vestido todo de verde tinha de encarar os maiores desafios numa floresta barra-pesada: buracos, troncos de árvore desgovernados, lagoas infestadas de jacarés, escorpiões e outros bichos. Era preciso coragem e talento de Indiana Jones para sobreviver a tantos perigos!
Muitas saudades desse planeta de traços simples e aventuras infinitas chamado Atari. Talvez o charme que hoje enxergamos nele – um charme retrô – esteja justamente no fato de ser ele apenas um esboço da “realidade”, um rascunho “malfeito” – mas não menos divertido – de mundos possíveis e impossíveis, em que podíamos imaginar com mais liberdade, sem a interferência de zilhões de gigabytes...
Ih, lá vem o fantasminha!... Game over.

21/11/2009

Para quem acredita em fantasmas

Faz uns dias fui ao cinema assistir à enésima adaptação do clássico Um conto de Natal, de Charles Dickens, desta vez com Robert Zemeckis na direção e Jim Carrey como o patinhas da vez, o “bom” e velho Ebenezer Scrooge. Gostei. Primeiro porque não tentaram reinventar a árvore de Natal. Embora tenham utilizado as técnicas mais avançadas de animação (inclusive 3-D), as inovações param por aí. O filme segue passo a passo as linhas deixadas pelo escritor inglês − sem medo de, num mundo tão material e cínico, parecer ingênuo ou mesmo bobo.
E é aqui que mora a segunda razão, que ainda é um pouco da primeira, por que gostei de Os fantasmas de Scrooge (dispensável novo título dado a essa “nova” versão de A Christmas Carol): o espírito do original − com trocadilho, claro − foi mantido. Não se procurou relativizar ou suavizar as ideias moralistas de Dickens: estão lá o Scrooge antes dos fantasmas − avarento, mesquinho, cruel e que não suporta jingle bells, nozes e avelãs − e o Scrooge depois dos fantasmas − inacreditavelmente arrependido de suas vilanias, magicamente tocado por sentimentos de bondade e generosidade. Um homem renascido de suas cinzas.
Mas... e a digníssima plateia? Como reagiu diante de um final tão feliz, tão "convencional", tão “ingênuo”, tão “bobo”? Como um sujeito que esqueceu os bons valores (e hoje seria comparável a um ricaço apenas preocupado com os valores da bolsa de Nova Iorque) pode se transformar da noite para o dia; e mais, graças à visita de três fantasminhas “camaradas”? Lucros e dividendos à parte, o fato é que o público − na maioria crianças − comprou a ideia e aplaudiu com entusiasmo ao término da projeção. Ok, ok, isso pode parecer pouco, quase nada; mas, num mundo pós-Shrek, acostumado a "rir" dos contos de fada e fantasma, já é muito. Acredite.

15/11/2009

Cilada

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Pobre amigo. Foi convidado para ser padrinho de casamento. Ok, o convite veio de uma amiga muito querida, e o leitor dirá que é uma honra (e é mesmo). Bom, isso até a página dois. O rapaz tinha acabado de comprar roupa nova, daquelas para casamento e festas afins. Só que a camisa escura e a calça cinza, suficientemente caras, vão continuar no armário. Porque, para o casório da amiga, o uniforme é terno preto. Que puxa!
Mas os gastos não param no provável aluguel do traje de gala. Tem o presente. O famigerado presente dos padrinhos. Uma geladeira duplex, um fogão de seis bocas, um LCD de 42 polegadas? Sorte dele, a noiva já mobiliou a casa e, portanto, não deve estar precisando de “utensílios” tão grandes. Ufa, ufíssima! De qualquer maneira, essa é uma conta que se divide com a madrinha, que, não por coincidência, é sua namorada – e está em apuros bem maiores. Por causa do vestido longo (que, de tão longo, merece um parágrafo só pra ele).
Pois é, o incrível caso do vestido longo. Onde encontrar um vestido longo para uma madrinha curta, digo, baixinha? Nessas lojinhas de aluguel que “decoram” nossos shoppings? Se a festa fosse à fantasia, ok, seria possível achar alguma coisa ali. Se fosse uma festa mais moderninha, informal, dessas em que os convidados recriam os zumbis de Thriller, dançam para a câmera e, no dia seguinte, para os milhões de usuários do Youtube, quem sabe. Mas não é o caso nem a ocasião – e a cruzada pelo Santo Vestido Longo continua...
Outra busca dificílima e longa, quase tão longa quanto o vestido da madrinha, é a canção que embalará a entrada dos padrinhos na cerimônia religiosa. Nesse quesito, a noiva é moderninha – o que tem tirado o justo sono do meu amigo e da sua namorada. Que “homenagem amiga”, guardada a sete chaves, estará reservada para eles quando pisarem o tapete vermelho? “Amigos para sempre”, “Canção da América”?...
É, amigo, a situação é delicada, eu sei (e agora os meus leitores sabem também); por isso, vou acender umas velas, comprar umas rosas bem bonitas, botar uma roupinha melhor, chamar um coral de meia dúzia de amigos do peito, de fé, irmãos camaradas (a Julia Roberts e a Cameron Diaz não estavam disponíveis, infelizmente), e say a little prayer for you...